Timor vive a tensão entre tradicional e moderno de modo limite. Essa e a sensação mais forte que tenho ate agora a respeito do processo de construção da nação aqui. Nos painéis da conferencia que participei na semana passada, esse foi o tema predominante, que perpassa as discussões sobre saúde, educação, justiça e tudo mais. Como definir, por exemplo, o que e saude mental sem levar em conta a ideia local de normalidade? Como produzir a sensacao de justica contornando a sensibilidade local a respeito deste assunto? Nas entrevistas que já pude fazer sobre as comissões de verdade e reconciliação, também o choque de paradigmas entre as tradições e os padrões da democracia liberal foi a questão estruturante. Nas agendas de governo, o desafio de ajustar o moderno aos hábitos e costumes locais e, sem duvida, a preocupação dominante. E e importante levar em conta que a ideia de tradicional, aqui, nao constitui um universo homogeneo. Embora o pais seja muito pequeno, as variacoes culturais e linguisticas sao expressivas.
Rios de dinheiro já foram empregados em consultorias internacionais para desenhar modelos de conciliação entre o inconciliável. Como lidar, por exemplo, com os homens que julgam ter o direito de casar com uma segunda mulher da mesma linhagem no caso de não se sentirem satisfeitos com os serviços matrimoniais da primeira? Eles pagam um dote caro pela mulher e querem ser bem atendidos. Como inserir pessoas movidas por este universo de expectativas no mundo dos direitos ocidentais sem o custo árduo – e as vezes inócuo - da violação cultural? E comum que os padrões de interação tradicional sigam intocados, imunes a figura do Estado regulador. Em sucos no interior no pais, existem claros movimentos de fechamento e endurecimento das tais culturas tradicionais diante da “ameaça moderna”. Em muitos casos, pelo que narrou um antropólogo timorense em conferencia, e possivel identificar o resgate de praticas já extintas há duas ou três gerações como modo de resistência a imposicao dos direitos modernos. Difícil fazer o Estado penetrar nesses redutos, sobretudo num cenário de fragilidade notória dos governos locais e nacional.
O embate entre ativistas de direitos humanos, com a arrogância do discurso universal, e antropólogos, com a inflexibilidade do argumento dos direitos culturais, não tem um desfecho possível. Não consigo me posicionar confortavelmente de um ou outro lado. Os ativistas, imbuídos de uma missão civilizacional, acreditam que vieram salvar os pobres timorenses de sua própria cultura. Mais precisamente, as pobres timorenses, pois são obcecados pelo tema do gênero e acham que a sociedade patriarcal constitui um sistema de valores compartilhado apenas pelos homens e imposto, pela forca, as mulheres. Nesta perspectiva, as mulheres são vitimas da cultura que integram e devem ser resgatadas dela. Depois de dias de convivência intensa com os dois personagens de discurso, ficou evidente para mim a ausencia completa de humor de muitos ativistas. Sao incapazes de olhar para o mundo sem olhos de escrutínio e juízo moral. Ao descrever hábitos de constituição de família de um determinado povoado no pais, uma certa missionária da ONU narrava cenários de repulsa para uma mulher ocidental. Num determinado momento da conversa, ela disse haver - na mesma aldeia que dava ao homem o direito de transitar entre as diversas mulheres da família - o direito das mulheres migrarem entre homens da mesma família no caso de óbito do marido original. Eu ouvi com surpresa esse relato – que enfim produzia algum reconhecimento para a mulher - e deixei escapar um: “que legal!”. Fui congelada imediatamente por oito ou dez olhos de censura. Alem da ambição desmedida de organizar o mundo segundo seus padrões, os ativistas também irritam pela recusa dos “acadêmicos”, como se a ação pudesse prescindir da reflexão.
Os antropólogos, em contrapartida, embora me inspirem mais simpatia, também podem ser muito chatos com a ditadura da imparcialidade. Parece que, eles próprios, não tem nenhuma inscrição cultural e partem do principio de que todas as coisas que tem a ver com cultura (hábitos, costumes, instituições) são boas em si mesmas porque relativas a um determinado universo compartilhado de valores. Se uns irritam pela arrogância universalista, os outros irritam pela recusa de todo juízo moral.
terça-feira, 14 de julho de 2009
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário